Recentemente, li um artigo sobre o país com um título para lá de negativo: “Brasil piora e é o 3º país mais complexo do mundo para negócios, diz ranking” (Exame, 12 de maio de 2026).
O artigo apresenta um diagnóstico pouco favorável ao ambiente empresarial brasileiro em termos de empreendedorismo, inovação e competitividade. Em um universo de 81 países — o mundo tem 195 países — ficamos em terceiro lugar na classificação, perdendo apenas para Grécia e México.
Vamos, antes de mais nada, alertar sobre alguns pontos quando falamos desse tipo de pesquisa.
Primeiro, rankings devem ser interpretados com cautela. Por mais que uma instituição de pesquisa tenha seriedade e ótimos critérios para elaborar uma listagem comparativa, nem sempre ela contempla, de forma ampla, os diversos fatores que influenciam o ambiente de negócios. A leitura de um ranking nunca pode ser absoluta e muito menos limitada à sua visão cartesiana sobre os pontos vantajosos ou desvantajosos que a instituição quer ranquear em seus avaliados. Fazer negócios não é uma corrida por medalhas nem por um bom lugar no pódio.
Segundo ponto: a classificação apresentada no artigo fala sobre complexidade e não sobre impossibilidade; sobre obstáculos e não sobre abismos intransponíveis. De forma muito simples, o que o ranking nos diz é que Grécia, México e Brasil são muito complicados para fazer negócios. Isso não significa que não se façam negócios nesses países, mas que exige maior capacidade de gestão, adaptação e resiliência empresarial do que no restante da amostra de países analisados.
Por uma série de fatores, construir negócios sustentáveis no mercado brasileiro — seja lá o que o leitor entenda por isso — é um tremendo desafio, e muitos empresários, empresas e empregos perecem no meio desse caminho.
Mas há sempre duas maneiras de visualizar a realidade, mesmo que ela passe pelo filtro de uma pesquisa comparativa. Longe de uma relação de causa e efeito entre limões e limonadas, construir negócios sustentáveis no mercado brasileiro já representa uma vantagem competitiva significativa para dar certo no restante do mundo. O estudo citado no artigo foca principalmente no excesso de burocracia e na falta de previsibilidade da estrutura regulatória brasileira. Esses fatores representam apenas parte do desafio. Temos inúmeros outros problemas que nos colocam em posição de destaque entre os países mais complexos para fazer negócios no mundo.
O foco aqui não é elencar esses pontos que nos tornam menos competitivos e muito menos propor soluções para cada um deles. O empresário médio brasileiro sabe quais são suas dores e as dores do país, bem como sabe como o Estado brasileiro e seus governos poderiam resolver essa situação que limita a capacidade de crescimento, investimento e inovação das empresas brasileiras e, portanto, o desenvolvimento da economia nacional.
O que gostaria de enfatizar é que empresários que desenvolveram negócios de sucesso no Brasil, em uma situação tão complexa e para lá de desafiadora, são merecedores de reconhecimento não apenas sob o ponto de vista brasileiro, mas também mundial. De forma muito simples, dada a complexidade de fazer negócios no mercado nacional, quem prospera em um ambiente tão desafiador tende a estar mais preparado para competir globalmente.
Ir para o mercado externo com produtos, serviços e até mesmo investimento externo direto passou a integrar a agenda estratégica de crescimento das empresas. Uma necessidade que, tendo em vista nossa experiência acumulada na superação de desafios, podemos, sim, enfrentar com a experiência adquirida no mercado brasileiro e com preparo para novos desafios no mercado exterior.
E, para não terminarmos com uma agenda negativa, vale lembrar que o país bate sucessivamente recordes de exportação em comparação com suas séries históricas. Se podemos bater nossos recordes de exportação, o que nos impede de ampliar nossa presença internacional com maior ambição e protagonismo?
FONTE: Olavo Furtado



