A nova tarifa de 25% anunciada pelo governo dos Estados Unidos para produtos brasileiros acendeu o alerta em diferentes regiões do país. Embora parte do agronegócio tenha ficado fora da medida, setores industriais com forte presença no mercado americano podem enfrentar perda de competitividade, redução das exportações e impactos sobre o emprego.
Estudos elaborados pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), com dados consolidados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que o Ceará lidera o índice de exposição ao mercado americano, com quase metade de suas exportações destinadas aos Estados Unidos, seguido pelo Espírito Santo e pela Paraíba.
Os dados abaixo apresentam os estados brasileiros com maior dependência relativa do mercado dos EUA, considerando a participação percentual nas exportações estaduais e os principais setores afetados:
| Estado | Participação dos EUA nas Exportações | Principais Setores Exportadores para os EUA | Principais Municípios Afetados |
| Ceará | 44,9% | Metalurgia (67%), Alimentos (17%), Couro e Calçados (8%) | Fortaleza, Caucaia |
| Espírito Santo | 28,6% | Metalurgia (37%), Minerais Não Metálicos (22%), Celulose e Papel (18%) | Vitória, Aracruz, Linhares |
| Paraíba | 21,6% | Alimentos (85,5%), Couro e Calçados (10,2%) | João Pessoa, Campina Grande |
| São Paulo | 19,0% | Indústria de Transformação (92% do total) | São Paulo, Campinas, São José dos Campos |
| Sergipe | 17,1% | Alimentos, Manufaturados diversos | Aracaju |
“O Ceará destaca-se como o caso mais crítico de dependência. O estado exportou US$ 659,1 milhões para os EUA, dos quais 96,5% originaram-se da indústria de transformação. O setor metalúrgico cearense, concentrado no complexo industrial e portuário do Pecém, é o mais vulnerável, respondendo por US$ 441,3 milhões do total exportado”, diz Maurício Manfré, assessor de negócios internacionais da São Paulo Chamber of Commerce da ACSP (Associação Comercial de São Paulo)
Perdas bilionárias no Sul e Sudeste
Se, em termos relativos, o Nordeste apresenta os maiores índices de dependência, a análise em valores absolutos revela que as regiões Sul e Sudeste concentrarão as maiores perdas financeiras. Juntos, os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais acumulam prejuízos estimados que ultrapassam R$ 11,5 bilhões.
A estimativa de perdas no PIB (Produto Interno Bruto) e o impacto financeiro por estado são detalhados na tabela abaixo, baseada em projeções da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da CNI:
| Posição | Estado | Perda Estimada (R$ Bilhões) | Impacto no PIB Estadual | Principais Produtos Sob Risco |
| 1º | São Paulo | R$ 4,40 | -0,13% | Químicos, autopeças, máquinas, manufaturados |
| 2º | Rio Grande do Sul | R$ 1,91 | – | Metais (17,4%), Fumo (12,8%), Calçados (10,1%) |
| 3º | Paraná | R$ 1,91 | – | Madeira (38,7%), Alimentos (14,3%), Máquinas (13,7%) |
| 4º | Santa Catarina | R$ 1,70 | -0,31% | Madeira (37,2%), Autopeças (14,8%), Máquinas elétricas |
| 5º | Minas Gerais | R$ 1,66 | -0,15% | Metalurgia (37,6%), Agropecuária (33,6%), Alimentos |
| 6º | Amazonas | R$ 1,10 | -0,67% | Equipamentos de transporte, combustíveis, eletrônicos |
| 7º | Pará | R$ 0,97 | -0,28% | Metalurgia (50,3%), Químicos (18,8%), Alimentos |
Os números ajudam a explicar por que os estados do Sul aparecem entre os mais vulneráveis ao tarifaço, especialmente em cadeias produtivas dependentes do mercado americano, pontua Manfré.
Sul concentra cadeias produtivas mais expostas
No Paraná, a preocupação da indústria está concentrada principalmente na madeira e no setor metalmecânico. Segundo João Arthur Mohr, superintendente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), quase 80% dos produtos exportados pelo estado para os Estados Unidos seriam atingidos pela nova tarifa.
A madeira sozinha responde por cerca de 40% da pauta exportadora paranaense para o mercado americano, enquanto o setor metalmecânico representa aproximadamente 20%.
Mohr afirma que o setor madeireiro é particularmente vulnerável porque disputa mercado diretamente com fornecedores de países como Canadá, Chile e nações do Sudeste Asiático. Com a sobretaxa, empresas brasileiras podem perder competitividade e o espaço exportador rapidamente.
Segundo ele, produtos como tábuas serradas, madeira compensada e molduras utilizadas na construção civil americana estão entre os mais expostos. As molduras, em especial, foram desenvolvidas para atender características específicas do mercado dos Estados Unidos, o que dificulta a busca imediata por novos compradores.
Municípios dependentes podem sentir os primeiros impactos
A preocupação é ainda maior em cidades cuja economia depende fortemente de setores exportadores.
Um dos casos citados pela Fiep é o município de Bituruna, no sul do Paraná. Segundo Mohr, cerca de 87% dos trabalhadores da indústria local atuam no setor madeireiro.
O impacto, afirma, não ficaria restrito às fábricas. Cadeias ligadas ao transporte, oficinas mecânicas, comércio de pneus, hotéis e outros serviços também poderiam sentir os efeitos de uma eventual retração das exportações.
Em Santa Catarina, um estudo elaborado por Manfré, da ACSP, aponta que 98 municípios exportadores podem ser afetados. Entre eles estão:
– Caçador: importante polo de madeira e móveis;
– Joinville: referência na indústria metalmecânica;
– Jaraguá do Sul: com forte atuação na produção de equipamentos elétricos;
– Lages: forte na exportação de madeira serrada;
– Três Barras: destaque na produção de madeira serrada; e
– Curitibanos: produtora de madeira serrada.
No Rio Grande do Sul, outro foco de atenção, segundo Manfré, está na indústria calçadista, especialmente nos municípios de Novo Hamburgo, Sapiranga e Campo Bom, localizados no Vale do Rio dos Sinos. A região reúne mais de 32 mil empregos diretos no setor e tem forte dependência do mercado americano.
Empregos entram no radar em estados exportadores
Os efeitos sobre o emprego tendem a se concentrar em setores intensivos em mão de obra.
No setor calçadista do RS, a projeção de demissão de até 4 mil trabalhadores nos próximos 12 meses representa o fechamento de quase 5% de todas as vagas do setor no estado. Na metalurgia do ES, onde a remuneração média do trabalhador é a maior do país (R$ 6.406,87), a perda de competitividade das exportações de aço coloca em risco empregos de alta qualificação técnica, de acordo com Manfré. No Ceará, o complexo metal-mecânico, que gera mais de 13 mil postos de trabalho diretos, enfrenta o mesmo desafio de retração de mercado.
No Paraná, a indústria da madeira já enfrentou dificuldades após a primeira rodada de tarifas aplicada anteriormente pelos Estados Unidos. Segundo Mohr, o setor registrou mais de 8 mil desligamentos no ano passado.
A entidade também cita empresas de transformadores de energia que mantêm equipes inteiras voltadas ao mercado americano. Em um dos exemplos apresentados, cerca de 800 funcionários trabalham diretamente na produção destinada aos Estados Unidos.
Produção de tilápia preocupa paranaenses
Embora grande parte do agronegócio tenha sido poupada da nova rodada de tarifas, a piscicultura aparece como um dos segmentos mais sensíveis.
Produtos como café e suco de laranja ficaram fora da medida, segundo Carolina Bianca Teodoro, coordenadora da área de economia e mercado da Ocepar. Já soja, milho e trigo tendem a sofrer impactos mais limitados porque os Estados Unidos não são um destino relevante para as exportações paranaenses desses produtos.
No caso da soja, por exemplo, o Paraná não será tão afetado, já que apenas 1% das exportações do estado segue para o mercado americano.
A situação é diferente na tilápia, segundo Carolina. O Paraná respondeu por 94% de toda a tilápia exportada pelo Brasil para os Estados Unidos em 2025. Das 6.964 toneladas exportadas pelo estado para todos os países, 6.186 toneladas tiveram como destino o mercado americano.
A atividade tem peso especial para pequenos e médios produtores. Segundo Carolina, 48% das propriedades rurais do Paraná são pequenas ou médias, e a criação de tilápia representa uma alternativa importante de geração de renda em áreas reduzidas.
Cooperativas apostam em negociação e novos mercados
Apesar das preocupações, o cooperativismo paranaense evita previsões mais pessimistas neste momento.
“Ainda existe espaço para negociações diplomáticas e comerciais antes da entrada em vigor das tarifas. A avaliação é que não há motivo para pânico enquanto governo e setor privado tentam construir alternativas”, diz Carolina.
A Ocepar afirma que as cooperativas tendem a absorver parte dos impactos para proteger os produtores rurais. Foi o que ocorreu anteriormente com a tilápia. “Os exportadores reduziram margens e mantiveram as vendas, preservando os volumes exportados, mas com menor rentabilidade”, lembra a economista.
Entre as alternativas em estudo estão a ampliação das vendas para o Canadá, que já possui acordo sanitário para o produto, e a busca por novos mercados na Europa. No entanto, segundo a entidade, nenhum deles tem capacidade imediata para absorver o volume atualmente destinado aos Estados Unidos.
FONTE: dcomercio.com.br/



